O alerta veio de quem conhece o jogo

Gorô Taniguchi não é qualquer diretor. Ele assinou One Piece Film Red, Code Geass e o recente L’étoile de Paris en fleur. Em 26 de maio de 2025, ele deu uma palestra de 90 minutos na Universidade Keio, em um evento patrocinado pela produtora ARCH. O jornal Asahi Shimbun cobriu tudo.

O assunto? Os problemas sérios que estão corroendo a produção de anime hoje em dia.

O problema do ‘anime fast-food’

Taniguchi usou uma expressão bem direta: ‘junk food’. Pra ele, quando cada departamento trabalha no seu canto sem uma direção unificada, o resultado é isso — estimulante na superfície, mas sem identidade e sem coerência.

Ele citou um exemplo concreto. Diretores de fotografia (os DoPs, que trabalham sob o comando do diretor principal) costumam postar nas redes sociais comparativos de cenas antes e depois do tratamento de imagem. Taniguchi disse que isso era, nas palavras dele, ‘a coisa mais embaraçosa possível’.

O motivo? Na maioria dos casos, esses ajustes não foram solicitados pelo diretor. São correções que os DoPs fazem por conta própria pra compensar defeitos no material bruto que recebem. Ou seja: o diretor não deu instrução nenhuma.

‘O jeito certo é o diretor mapear tudo desde o início e orientar o DoP a trabalhar daquela forma’, disse Taniguchi.

Cada peça pode parecer boa isolada. Mas sem uma visão central que una tudo, o produto final vira um frankenstein de coisas ‘boas’ que não conversam entre si.

O colapso do sistema de aprendizado

Outro ponto forte da palestra foi sobre as temporadas curtas. Por volta de 2005, o mercado explodiu em séries de um cour — aquelas temporadas de 11 a 13 episódios que cobrem um trimestre do ano. Antes disso, o padrão era dois cours.

Pro Taniguchi, essa mudança destruiu o sistema informal de aprendizado da indústria. Com apenas um cour, um diretor de episódio consegue trabalhar em no máximo três episódios. E três episódios não são suficientes pra aprender nada de verdade.

‘O sistema de formação desmoronou. Esse problema ainda não foi resolvido direito’, afirmou ele.

Taniguchi apontou que os poucos estúdios que ainda conseguem manter esse ciclo de aprendizado são os grandes, que produzem séries longas voltadas para o público infantil. Ele citou nomes: Toei Animation (sim, a casa de One Piece, que está no ar desde o fall de 1999 com mais de mil episódios), TMS Entertainment e Shin-Ei Animation.

O repórter Atsushi Ohara, do Asahi Shimbun, que acompanhou o evento, explicou a lógica: em séries longas, os diretores de episódio têm mais chances de receber feedback do diretor principal. Em séries curtas, essa troca quase não acontece.

Adaptação fiel ou liberdade criativa?

A palestra ainda tocou em outro debate clássico: adaptar o mangá ao pé da letra ou dar liberdade criativa ao diretor? Taniguchi falou sobre isso também, inclusive usando sua adaptação de Planetes, de Makoto Yukimura, como referência de como equilibrar drama e ação.

A cobertura completa do Asahi Shimbun traz as citações integrais de Taniguchi sobre todos esses temas.

O trabalho mais recente de Taniguchi

Enquanto o debate sobre a saúde da indústria segue, Taniguchi está com um projeto nas telas. L’étoile de Paris en fleur estreou no Japão em 13 de março de 2026. O filme acompanha Fujiko, que sonha em ser pintora, e Chizuru, apaixonada pelo balé. As duas se reencontram em Paris depois de um primeiro encontro em Yokohama e partem em busca dos seus sonhos.

Se você curte One Piece e se pergunta por que certas produções novas parecem sem alma, a análise de Taniguchi explica bastante coisa.


Ficha do anime: AniList · MyAnimeList